terça-feira, 10 de novembro de 2015


"Popularidade? É da glória um troco pequeno." 
Victor Marie Hugo

GLÓRIA (lat. glorĭa,ae 'id.) SINÔNIMOS: notoriedade adquirida por feitos heróicos ou grandes méritos, obras ou por suas extraordinárias qualidades. Pessoa ou obra famosa; motivo de orgulho, de exaltação. Grandeza, honra, grande beleza; esplendor, fausto, magnificência ou beatitude celeste.

POPULARIDADE (lat. popularĭtas,ātis 'afeição ao povo, inclinação a favorecê-lo') SINONIMOS: Caráter de uma pessoa que tem as simpatias do povo; estima ou preferência pública.


E nesse jogo perigoso, incontáveis buscam, antes, o “troco pequeno”, a tão ambicionada popularidade, em lugar daquilo que naturalmente daria consequência a ela... Mas, como nada na vida se constrói às avessas, nenhum edifício eleva-se às alturas sem alicerces bem sólidos, a popularidade vem pobre, sozinha, desamparada, ignorante, sem glória, sem extraordinárias qualidades, sem nada.... A pressa é grande... A pressa tem sido grande... Não raras vezes associa-se (por ser tão desamparada) à hipocrisia que “é a homenagem que o vício presta à virtude” na máxuma de Fraçois La Rochefoucald.

A palavra hipocrisia (de raiz grega) designava, originalmente, ator de teatro. Quando Jesus chamava os fariseus de hipócritas era o mesmo que hoje chamarmos alguém de “fingidor” de “artista”.
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.
Mt. 23:27
“As opiniões do vulgo são muito inconsistentes, disso tenho experiência própria. Estejamos atentos aos nossos deveres, porque a ignorância sempre está pronta a transitar da maldição ao elogio e vice-versa. É bem possível que daqui a algumas horas me considerem um deus. Com efeito, quando viram que ele não acusara nem mesmo a mais leve impressão de dor, os indígenas passaram a observá-lo com entidade sobrenatural. Já que se mantivera indene ao veneno da víbora, não poderia ser um homem comum, antes algum enviado do Olimpo, a que todos deveriam obedecer.”
Palavras do Apóstolo Paulo a Timóteo e Lucas quanto na ilha de Malta, por conta de um naufrágio, rumo a Fenix.
Emmanuel – Chico Xavier
Livro Paulo e Estevão

Resta-nos suplicar a Jesus a completa (ou possível) consciência de que somos educandos na escola planetária e que nosso empenho maior deve ser não reincidir em antigos erros, porfiar nos deveres em silêncio, oração e lágrimas, buscando a ascensão espiritual, tendo no Evangelho a diretriz segura da qual necessitamos. Certamente será muito constrangedor ouvirmos, quando de retomo à Casa Verdadeira: “Já recebestes o vosso galardão”: o “troco pequeno”.

E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. 
Mateus, 6:5

Helaine C. Sabbadini
Muriaé, 09/11
/15



sábado, 20 de junho de 2015

Obediência & Resignação, Ética & Moral

Obediência e Resignação, Ética e Moral

Interessante, e instigante, avaliar conceitos, normas, leis, proposições sociais/comportamentais etc (dentro ou não de suas épocas históricas) sob a luz da compreensão Espírita. Que gigantesco leque se abre fazendo-nos abranger delicados valores e sentidos jazendo sub-reptícios sob a aluvião dos acontecimentos, de ordem social, pessoal, moral.

Principiamos por refletir: o que é obediência? O que é resignação? O que é ética? O que é moral no comportamento humano? Percebemos que, para além, da obediência julgada primitivamente subserviência; da resignação julgada covardia; da ética julgada insipiente e da moral julgada como retrocesso por muitos, remanesce um oceano de cogitações filosóficas e espirituais de valiosíssimo teor.


Não existe um espírito sequer isento de obediência, de ética, de moral ― como espelho da mesma ética (realidade espiritual de cada um). Já a resignação é atributo das grandes almas... Se considerarmos o terreno da obediência somente como sujeição as leis; da ética como preceito com aplicação nas profissões, na administração pública, na política etc. e moral como comportamento atinente a cada cidadão em face das leis e normas sociais de seu tempo estaremos enclausurando a OBEDIÊNCIA, a ÉTICA  e MORAL em cárcere restrito. Tais procederes são deveres inquestionáveis, são obrigações basilares para uma vida digna em sociedade.

Busquemos, além disso, a afirmação do espírito Lázaro inserida no ESE: “A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração”[1] ― bem, entendemos que a obediência está também circunscrita a um nível de compreensão, de entendimento que abrange os refolhos do espírito; quanto maiores, maior é a obediência. A resignação só é possível pelas vias do amor, dos superiores valores espirituais albergados através das multisseculares experiências reencarnatórias, haja vista que, nem sempre, conhecer é realizar com proveito.

E em que ponto a obediência e a resignação ligam-se à ética e a moral? Estaríamos, por ventura, falando da ética como ramo da filosofia consagrado aos  princípios que motivam, disciplinam ou orientam o comportamento humano, ajuizando normas, valores, imposições e exortações presentes em qualquer realidade social? Não, definitivamente não! Como Espíritas temos que avançar desassombradamente nesse terreno. A palavra ética, que é derivada do grego ethikos significa aquilo que pertence ao ethos (ao “Eu” -  aquilo que sou; refletido fora de mim), ou seja, refere-se aos costumes superiores ou àquilo que pertence ao caráter e isso, claro, não estará jamais desatrelado dos valores espirituais. Portanto, nos interessa avaliar ética como sendo o conjunto de valores adquiridos pelo espírito que repercutem em forma de vida/comportamento moral. Por conseguinte poderíamos colocar assim: ética (o que sou) refletindo comportamento e padrões morais (ações) aliados inquestionáveis do conhecimento (razão, julgamento) e das virtudes (estruturação de elevados sentimentos no espírito). Um não viverá sem os outros, pois a evolução necessita desse conjunto.

A ética ― oriunda de normas e preceitos filosófico sociais pode ser mera imposição...
A moral ― como costume e sujeição a determinados princípios pode ser mero verniz social de pouca duração...
A obediência ― como constrangimento às leis civis pode ser mero recolhimento e temor...
Mas a resignação é um dos diamantes que compõem a ética espiritual, a expressar joia belíssima e de alto valor, à qual são incrustadas outras gemas quais as da indulgência, do amor puro, da renúncia, do perdão, da humildade, da bondade, dentre outras.

O Cristão da Nova Era possui o dever do esforço por transcender os níveis da moral e da ética terrenas, não sendo um “bom cidadão”, pleno de humanidade, fraternidade e respeito ao próximo (em todos os níveis evolutivos) apenas por dever (embora tudo comece pelo dever), mas pela espontaneidade, de posse do libertador atributo de ser e agir pela livre escolha, no anseio genuíno de ser melhor e não viver na experiência terrena como um autômato.

Swamijee Paramahansa Yogananda no seu livro Autobiografia de um Yogui afirma algo digno de nota, que colocarei com minhas palavras: “O que fazemos, doamos, concedemos, espontaneamente (bens físicos ou emocionais), possui outro sabor e valor do que aquilo que fazemos, doamos, concedemos quando não há mais outra saída e o irremediável é tudo que nos resta.”

Repetimos com o paizinho Francisco de Assis imitador genuíno do Cristo: “A paz seja entre nós”

Helaine Coutinho Sabbadini
Pirapanema, em 20 de junho de 2015






[1] Kardec Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. IX – item 8 – Obediência e Resignação, Espírito Lázaro, recebida em Paris no ano de 1863.

"Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.”

Vivemos sobre estruturas culturais e religiosas que remanescem desconhecidas, ainda assim cultivadas e celeradas ardorosamente. 


Em pleno século XXI cultuamos tradições estrangeiras que nos foram impostas pelo capitalismo selvagem, e ainda dizemos: muito obrigado. Lembrar a imolação do Cristo, em muitas instâncias na atualidade, é afundar-se num “sem fim” de posturas e comemorações completamente desassociadas do recolhimento e da prece sincera que brota do âmago da alma.

A Páscoa ou Pessach do hebraico “passagem” é uma celebração judaica (relatada no Antigo Testamento) referente à saída dos judeus do Egito (vide Êxodo), mas depois se tornou uma celebração cristã por conta do Concilio de Nicéia, acontecido em 325 d.C.. Neste período, os clérigos tinham a expressa preocupação de ampliar o seu número de fiéis por meio da adaptação de algumas antigas tradições e símbolos religiosos a outros eventos relacionados ao ideário cristão. A partir de então, observaríamos a pintura de vários ovos com imagens de Jesus Cristo e sua mãe, Maria, aliás, tradição pagã milenar.
Segundo o novo testamento Jesus, na última ceia, ofereceu à refeição pascal um novo significado, pois ele se preparava e aos seus discípulos para a sua partida. O Cristo identificou o pão (matzah judaico) e o vinho como sendo o seu corpo o que era para ter sido abstraído em sua essência: “VIVER COMO ELE VIVEU”: "Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa (NOSSA PASSAGEM, NOSSA MUDANÇA), foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.” (I Coríntios, 5:7 e 8), fazendo referências aos requisitos religiosos judaicos de que não haja fermento na casa e do sacrifício do cordeiro pascal (korban), que passou a ser identificado como Jesus .


João Evangelista menciona que Jesus foi crucificado no mesmo horário que os cordeiros estavam sendo sacrificados no templo na tarde de 14 de Nisan. Conforme o Antigo Testamento os cordeiros devem ser imolados à tardinha (Êxodo 12:6), no crepúsculo. No período romano, entretanto, os sacrifícios eram realizados no meio da tarde. Esta interpretação, porém, torna-se inconsistente quando confrontada com os sinópticos, no texto de João 19:14 ("Era a parasceve cerca da hora sexta"), literalmente revelado 14 de Nisan (o dia de preparação para a páscoa judaica) e não ao Yom Shishi (a sexta-feira seguinte), dia de preparação para o sabá (festival da Páscoa judaica ou festival do pão ázimo"), Levítico, 23:8.

Nas antigas culturas do Mediterrâneo, no Leste Europeu e no Oriente, encontraremos o uso do ovo como presente. Em geral, esse tipo de manifestação acontecia quando os fenômenos naturais anunciavam a chegada da primavera.
Não por acaso, vários desses ovos eram pintados com algumas gravuras que tentavam representar algum tipo de planta ou elemento natural. Em outras situações, o enfeite desse ovo festivo era feito através do cozimento deste junto a alguma erva ou raiz impregnada de algum corante natural. Atravessando a Antiguidade, este costume ainda se manteve vivo entre as populações pagãs que habitavam a Europa durante a Idade Média.


Nesse período, muitos desses povos realizavam rituais de adoração para Ostera, a deusa da Primavera. Em suas representações mais comuns, observamos esta deusa pagã representada na figura de uma mulher que observava um coelho saltitante enquanto segurava um ovo nas mãos. Nesta imagem há a conjunção de três símbolos (a mulher, o ovo e o coelho) que reforçavam o ideal de fertilidade comemorado entre os pagãos.

No auge do período medieval, nobres e reis de condição mais abastada costumavam comemorar a Páscoa presenteando os seus com o uso de ovos feitos de ouro e cravejados de pedras preciosas. Até que chegássemos ao famoso (e bem mais acessível!) ovo de chocolate, foi necessário o desenvolvimento da culinária e, antes disso, a descoberta do continente americano.
Ao entrarem em contato com os maias e astecas, os espanhóis foram responsáveis pela divulgação desse alimento sagrado no Velho Mundo. Somente duzentos anos mais tarde, os culinaristas franceses tiveram a idéia de fabricar os primeiros ovos de chocolate da história. Depois disso, a energia desse calórico extrato retirado da semente do cacau também reforçou o ideal de renovação sistematicamente difundido nessa época, para alegria dos comerciantes e grandes indústrias de chocolate.
A celebração da Páscoa (da Passagem) do Cristo — do plano material para o plano etéreo — simboliza para os cristãos atuais um convite às grandes mudanças, às amplas e decisivas caminhadas, “pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” João 6, 55 e 56


Helaine Sabbadini

Alguns trechos baseados em Rainer Sousa
Graduado em História

Pintura de Caravaggio - Jesus Ressuscitado com os discípulos de Emaús