"Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.”

Vivemos sobre estruturas culturais e religiosas que remanescem desconhecidas, ainda assim cultivadas e celeradas ardorosamente. 


Em pleno século XXI cultuamos tradições estrangeiras que nos foram impostas pelo capitalismo selvagem, e ainda dizemos: muito obrigado. Lembrar a imolação do Cristo, em muitas instâncias na atualidade, é afundar-se num “sem fim” de posturas e comemorações completamente desassociadas do recolhimento e da prece sincera que brota do âmago da alma.

A Páscoa ou Pessach do hebraico “passagem” é uma celebração judaica (relatada no Antigo Testamento) referente à saída dos judeus do Egito (vide Êxodo), mas depois se tornou uma celebração cristã por conta do Concilio de Nicéia, acontecido em 325 d.C.. Neste período, os clérigos tinham a expressa preocupação de ampliar o seu número de fiéis por meio da adaptação de algumas antigas tradições e símbolos religiosos a outros eventos relacionados ao ideário cristão. A partir de então, observaríamos a pintura de vários ovos com imagens de Jesus Cristo e sua mãe, Maria, aliás, tradição pagã milenar.
Segundo o novo testamento Jesus, na última ceia, ofereceu à refeição pascal um novo significado, pois ele se preparava e aos seus discípulos para a sua partida. O Cristo identificou o pão (matzah judaico) e o vinho como sendo o seu corpo o que era para ter sido abstraído em sua essência: “VIVER COMO ELE VIVEU”: "Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa (NOSSA PASSAGEM, NOSSA MUDANÇA), foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.” (I Coríntios, 5:7 e 8), fazendo referências aos requisitos religiosos judaicos de que não haja fermento na casa e do sacrifício do cordeiro pascal (korban), que passou a ser identificado como Jesus .


João Evangelista menciona que Jesus foi crucificado no mesmo horário que os cordeiros estavam sendo sacrificados no templo na tarde de 14 de Nisan. Conforme o Antigo Testamento os cordeiros devem ser imolados à tardinha (Êxodo 12:6), no crepúsculo. No período romano, entretanto, os sacrifícios eram realizados no meio da tarde. Esta interpretação, porém, torna-se inconsistente quando confrontada com os sinópticos, no texto de João 19:14 ("Era a parasceve cerca da hora sexta"), literalmente revelado 14 de Nisan (o dia de preparação para a páscoa judaica) e não ao Yom Shishi (a sexta-feira seguinte), dia de preparação para o sabá (festival da Páscoa judaica ou festival do pão ázimo"), Levítico, 23:8.

Nas antigas culturas do Mediterrâneo, no Leste Europeu e no Oriente, encontraremos o uso do ovo como presente. Em geral, esse tipo de manifestação acontecia quando os fenômenos naturais anunciavam a chegada da primavera.
Não por acaso, vários desses ovos eram pintados com algumas gravuras que tentavam representar algum tipo de planta ou elemento natural. Em outras situações, o enfeite desse ovo festivo era feito através do cozimento deste junto a alguma erva ou raiz impregnada de algum corante natural. Atravessando a Antiguidade, este costume ainda se manteve vivo entre as populações pagãs que habitavam a Europa durante a Idade Média.


Nesse período, muitos desses povos realizavam rituais de adoração para Ostera, a deusa da Primavera. Em suas representações mais comuns, observamos esta deusa pagã representada na figura de uma mulher que observava um coelho saltitante enquanto segurava um ovo nas mãos. Nesta imagem há a conjunção de três símbolos (a mulher, o ovo e o coelho) que reforçavam o ideal de fertilidade comemorado entre os pagãos.

No auge do período medieval, nobres e reis de condição mais abastada costumavam comemorar a Páscoa presenteando os seus com o uso de ovos feitos de ouro e cravejados de pedras preciosas. Até que chegássemos ao famoso (e bem mais acessível!) ovo de chocolate, foi necessário o desenvolvimento da culinária e, antes disso, a descoberta do continente americano.
Ao entrarem em contato com os maias e astecas, os espanhóis foram responsáveis pela divulgação desse alimento sagrado no Velho Mundo. Somente duzentos anos mais tarde, os culinaristas franceses tiveram a idéia de fabricar os primeiros ovos de chocolate da história. Depois disso, a energia desse calórico extrato retirado da semente do cacau também reforçou o ideal de renovação sistematicamente difundido nessa época, para alegria dos comerciantes e grandes indústrias de chocolate.
A celebração da Páscoa (da Passagem) do Cristo — do plano material para o plano etéreo — simboliza para os cristãos atuais um convite às grandes mudanças, às amplas e decisivas caminhadas, “pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” João 6, 55 e 56


Helaine Sabbadini

Alguns trechos baseados em Rainer Sousa
Graduado em História

Pintura de Caravaggio - Jesus Ressuscitado com os discípulos de Emaús




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