Obediência & Resignação, Ética & Moral

Obediência e Resignação, Ética e Moral

Interessante, e instigante, avaliar conceitos, normas, leis, proposições sociais/comportamentais etc (dentro ou não de suas épocas históricas) sob a luz da compreensão Espírita. Que gigantesco leque se abre fazendo-nos abranger delicados valores e sentidos jazendo sub-reptícios sob a aluvião dos acontecimentos, de ordem social, pessoal, moral.

Principiamos por refletir: o que é obediência? O que é resignação? O que é ética? O que é moral no comportamento humano? Percebemos que, para além, da obediência julgada primitivamente subserviência; da resignação julgada covardia; da ética julgada insipiente e da moral julgada como retrocesso por muitos, remanesce um oceano de cogitações filosóficas e espirituais de valiosíssimo teor.


Não existe um espírito sequer isento de obediência, de ética, de moral ― como espelho da mesma ética (realidade espiritual de cada um). Já a resignação é atributo das grandes almas... Se considerarmos o terreno da obediência somente como sujeição as leis; da ética como preceito com aplicação nas profissões, na administração pública, na política etc. e moral como comportamento atinente a cada cidadão em face das leis e normas sociais de seu tempo estaremos enclausurando a OBEDIÊNCIA, a ÉTICA  e MORAL em cárcere restrito. Tais procederes são deveres inquestionáveis, são obrigações basilares para uma vida digna em sociedade.

Busquemos, além disso, a afirmação do espírito Lázaro inserida no ESE: “A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração”[1] ― bem, entendemos que a obediência está também circunscrita a um nível de compreensão, de entendimento que abrange os refolhos do espírito; quanto maiores, maior é a obediência. A resignação só é possível pelas vias do amor, dos superiores valores espirituais albergados através das multisseculares experiências reencarnatórias, haja vista que, nem sempre, conhecer é realizar com proveito.

E em que ponto a obediência e a resignação ligam-se à ética e a moral? Estaríamos, por ventura, falando da ética como ramo da filosofia consagrado aos  princípios que motivam, disciplinam ou orientam o comportamento humano, ajuizando normas, valores, imposições e exortações presentes em qualquer realidade social? Não, definitivamente não! Como Espíritas temos que avançar desassombradamente nesse terreno. A palavra ética, que é derivada do grego ethikos significa aquilo que pertence ao ethos (ao “Eu” -  aquilo que sou; refletido fora de mim), ou seja, refere-se aos costumes superiores ou àquilo que pertence ao caráter e isso, claro, não estará jamais desatrelado dos valores espirituais. Portanto, nos interessa avaliar ética como sendo o conjunto de valores adquiridos pelo espírito que repercutem em forma de vida/comportamento moral. Por conseguinte poderíamos colocar assim: ética (o que sou) refletindo comportamento e padrões morais (ações) aliados inquestionáveis do conhecimento (razão, julgamento) e das virtudes (estruturação de elevados sentimentos no espírito). Um não viverá sem os outros, pois a evolução necessita desse conjunto.

A ética ― oriunda de normas e preceitos filosófico sociais pode ser mera imposição...
A moral ― como costume e sujeição a determinados princípios pode ser mero verniz social de pouca duração...
A obediência ― como constrangimento às leis civis pode ser mero recolhimento e temor...
Mas a resignação é um dos diamantes que compõem a ética espiritual, a expressar joia belíssima e de alto valor, à qual são incrustadas outras gemas quais as da indulgência, do amor puro, da renúncia, do perdão, da humildade, da bondade, dentre outras.

O Cristão da Nova Era possui o dever do esforço por transcender os níveis da moral e da ética terrenas, não sendo um “bom cidadão”, pleno de humanidade, fraternidade e respeito ao próximo (em todos os níveis evolutivos) apenas por dever (embora tudo comece pelo dever), mas pela espontaneidade, de posse do libertador atributo de ser e agir pela livre escolha, no anseio genuíno de ser melhor e não viver na experiência terrena como um autômato.

Swamijee Paramahansa Yogananda no seu livro Autobiografia de um Yogui afirma algo digno de nota, que colocarei com minhas palavras: “O que fazemos, doamos, concedemos, espontaneamente (bens físicos ou emocionais), possui outro sabor e valor do que aquilo que fazemos, doamos, concedemos quando não há mais outra saída e o irremediável é tudo que nos resta.”

Repetimos com o paizinho Francisco de Assis imitador genuíno do Cristo: “A paz seja entre nós”

Helaine Coutinho Sabbadini
Pirapanema, em 20 de junho de 2015






[1] Kardec Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. IX – item 8 – Obediência e Resignação, Espírito Lázaro, recebida em Paris no ano de 1863.

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