Oração e Vigília


A noite fria esplendia em fulgor de luz celeste, naquela primavera de abril em que Jesus descia com seus discípulos o Monte Moriá em direção ao Vale Cedron com a finalidade de atingir a rampa ensombrada do Monte das Oliveiras...
Reflexos d’ouro espelhavam os cândidos olhos do Mestre Nazareno, fazendo-os brilhar quais estrelas de grandeza incomum, engastadas na face lirial do intemerato amigo.
Caminhavam contemplativos, irmanados por dulçurosas emoções que blandiam singulares melodias nos corações simples, que tantos ensinamentos haviam sorvido do Embaixador Divino, na convivência preciosa que chegava ao fim.
Entusiasta e devotado, Pedro, um dos que mais intimamente privara o calor da afeição do Mestre, ladeava-O pela estrada empoeirada embevecido a absorver-Lhe o néctar da sublime presença e em palavras enternecidas, prometia – Mestre, desejo sempre estar convosco, atento a todas as vossas advertências, banquetear-me com as vossas exortações fundamentadas em tantos exemplos de amor, fraternidade e perdão! Amo-vos! Amo-vos e quero sempre estar convosco, Jesus!
O doce Ouvinte sorriu brandamente e qual ave terna abrigou o amado discípulo no abraço de superiores vibrações e seguiram, comboiados de João e Tiago que entreteciam meigos sussurros.
Um painel esplendoroso pintava o horizonte sob o plenilúnio, que banhava toda a natureza com raios de prata, enquanto o grupo encaminhava-se solene para o Getsêmani, pequeno horto de cultivo de olivas situado no monte, para as orações do Mestre, naqueles que seriam os Seus últimos instantes com o amado colegiado.
Jesus convidou a Pedro, a Tiago e a João para que com ele adentrassem o horto, enquanto comungaria com o Pai. Apontando as pedras calcáreas que salpicavam a paisagem, falou brandamente – “sentai-vos aqui, enquanto vou orar.”1
Genuflexo, o Mestre prostrou-se ante a grandeza de Deus em irradiações sublimes e em comunhão divina, transfigurado em luzes miríficas, em ágape divinal.
O silêncio reinante era somente cortado pelo cicio da brisa, pelo chacoalhar das garagens das oliveiras, pelos ruídos noturnos dos insetos ocultos na gramínea.
Tudo, entretanto, envolto no alo perolado do luar; as árvores, as pedras, o monte, os discípulos e a face do Mestre q eu refulgia em claridades incomuns.
Nos instantes áureos do banquete opíparo os acompanhantes caros dormiam...
Dormiam João, Tiago e Pedro que há poucas horas prometera vigiar no amor ao Mestre... Quando foram despertos por Jesus que arrazoou em branda advertência – “não pudestes vigiar comigo uma hora?... Vigiai e orai para não cairdes em tentação!”2
Por uma segunda vez procurou-lhes a companhia preciosa na vigília e na oração, nos instantes graves, pouco antes do martírio da cruz para encontre-los, novamente adormecidos.
Os olhos do Mestre, de doces blandícies, pousaram ternamente sobre os filhos amados, antevendo o quanto os seus discípulos, assim como nós outros, os seus seguidores do futuro, muito precisaríamos caminhar, lutar e perseverar nos bons propósitos.
Prognosticava, o divino Profeta, que nos aguardariam inevitáveis pelejas, a fim de que as sadias consubstanciassem em torpor e sonolência, em enganos e distrações, nos caminhos tortuosos da existência.



Maria de Aquino
Helaine Sabbadini
Livro: Cartilha Evangélica



1 Mt. 26: 36
2  Mar.  14: 37 e 38

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