No Tempo de Shiva

Transponho a Índia Milenar a passos lentos e atentos, qual um estudante faminto do saber, como quem atravessa os obscuros caminhos de sua própria alma.
Nas ruelas estreitas, em meio ao vai e vem ensurdecedor do trânsito, sinto-me no Nirvana[1] aspirando o perfume inebriante dos incensos e o aroma forte da masala[2], podendo mesmo afirmar que é este o natural perfume da contemporânea Bhārat Gaṇarājya[3], de sua gente simples, de suas residências informais e dos templos em cada esquina.
Caminho recapitulando os cânticos do Mestre Rabindranath Tagore; a doçura de Shree Ramana Maharshi e a genialidade de Mohandas Karanchand Gandhi, sentindo com os seus corações místicos e patrióticos um amor sem fim por este chão dos antigos maharishis[4], exilados de um orbe distante e que povoam há muito esta civilização peculiar. No entanto agora, quem sabe, zelando à distância por seus herdeiros; uma massa compacta de vida em tremendos experimentos provacionais; disputando o mesmo espaço; o mesmo pão; algumas pobres rupias[5] para a manutenção da família.
Avanço no meu caminho para o sagrado Templo de Shiva, imersa na atmosfera da nação dos deuses milenares, fitando as gralhas a voejarem pelo espaço como nuvens negras, numa algazarra sem fim, para acomodarem-se de quando em quando nas imensas árvores… No imo da alma carrego o pleno reconhecimento de que permanecemos todos ainda exilados em nós mesmos, no universo de nossas íntimas reparações.
Os condutores de rickshaw[6] meneam a cabeça como a oferecer-me os seus préstimos numa corrida, mas andar nos caminhos de meu próprio espírito é indispensável; olhar o pó do solo, aspirar o aroma natural, misturar-me com a multidão.
Deleito-me em cada esquina, à frente de cada casa ou pequeno bazar com as faces sorridentes das damas enroladas em seus coloridos sharees[7] a saudarem-me com as palmas unidas ao peito dizendo; namaskar[8]…
Com olhares interessados e curiosos os transeuntes fitam-me a cismarem; “de que parte vem esta senhora? Não possui nossa alegria ou vivacidade, pobre alma… será que existe algum universo além de nossas vilas, assim tão melancólico?” E ao fazer esta leitura mental com a minha imaginação de romancista sorrio por dentro, prazerosamente.
Adentro os portais do Templo do Senhor Pashupati[9] com profunda reverência, sentindo na alma um frêmito de emoções antagônicas; prostração e espanto. A Índia das mil faces é o sagrado santuário do Senhor Shiva, o Mahadeva, Senhor da Transformação; Shankara o todo complacência e amor; Shambhu a alegria pura – mil faces para os mil protegidos.
Sinto-me inebriada, como qualquer um dos indianos descalços rompendo os limites da sagrada morada do ‘Portador do Trishula’[10], convicta de que com o mesmo Trishula o Senhor Shiva ampara-me, qual filha bastarda, retornando ao lar; clarificando-me dentro de minha própria ignorância. Ajuízo, em minha caminhada, na sábia metáfora guardada nas três pontas do Trishula de Shiva:tamas, rajas e sattva; inércia, movimento e equilíbrio, cientificamente explicados por Isaac Newton, Einstein ou Max Planck, e pasmo… pasmo abismada em mim mesma.
Subitamente estou à frente dos portais do Santuário, como que conduzida pelo próprio Senhor da Transformação e na tradição indiana devo solicitar-lhe as bênçãos e a permissão para a minha incursão em sua “Casa Milenar”. Deixo os sapatos empoeirados na soleira do templo, imitando o acatamento dos devotos que se aglomeram, e rompo os portais do mandir[11] com respeito e veneração, sorvendo o delicioso aroma dos incensos, deleitando-me com os cânticos e o som dos instrumentos. Olho discretamente para os lados a imitar as senhoras de mãos postas ao peito, ajoelhadas à frente da gigantesca estatuária do Senhor Shiva flamejando em tons de ouro e coloridos mil – ora recitam-lhe mantras, ora depositam-lhe oferendas e guirlandas de flores; para em outros momentos acenderem pequenas luzes em louvor ao divino guardião.
Minha alma é um misto de informações a serem processadas; os tantos conhecimentos adquiridos, as ortodoxias expressas ou dissimuladas nas doutrinas ocidentais, mesmo daqueles que advogam a simplicidade e a aversão profunda aos dogmas, aos paramentos, aos rituais… Ironicamente muitas vezes submersos em Maya[12] não percebem que são eles os mais cativos dos dogmas do “saber”, do “poder”, da “notoriedade”, pseudos detentores da sabedoria e da verdade… Intimamente sorrio percebendo que uma de minhas primeiras lições transubstancia-se em – AMOR E RESPEITO, pois a vida pura, espiritual, pulula em toda parte regida pelo mesmo Deus, Causa Incausada e Suprema de todas as coisas.
Avaliando, no imo do ser, que a maior de todas as mentiras que vivemos no Ocidente é a falsa noção da Verdade e do conhecimento de nós mesmos, prostro-me aos pés de Shree Shiva, do Senhor da Clarificação, banhada em lágrimas profundas de emoção, na ânsia de descobrir-me em Verdade e Vida, de modo a identificar-me em minha íntima essência Crística, para que o decesso do corpo denso não me obrigue a fazê-lo um dia.

Helaine Coutinho Sabbadini
Cuttack / Orissa / Índia
Janeiro, 2009


Nota 1:
Este pequeno relato pode ser chamado de crônica, doce recordação, parte de um diário… Não importa… Para minha alma são dulcíssimas lembranças, em forma de extraordinário aprendizado, eventos vivenciados por mim nos primeiros meses do ano de 2009, por conta de minha estadia em algumas cidades do estado de Orissa, Índia, numa profícua e profusa convivência com cerca de 50 famílias Hindus, das mais diferentes classes sociais.
Helaine C. Sabbadini

Nota 2:
A ÍNDIA
A ORGANIZAÇÃO HINDU

Dos espíritos degredados no ambiente da Terra, os que se agruparam nas Margens do Ganges foram os primeiros a formar os pródromos de uma sociedade organizada, cujos núcleos representariam a grande percentagem de ascendentes das coletividades do porvir.
As organizações hindus são de origem anterior a própria civilização egípcia e antecederam em muito os agrupamentos israelitas, de onde sairiam mais tarde personalidades anotáveis quais as de Abraão e Moisés.
As almas exiladas naquela parte do Oriente muito haviam recebido da Misericórdia do Cristo, de cuja palavra de amor e de cuja figura luminosa guardavam as mais comovedoras recordações, traduzidas nas belezas dos Vedas e dos Upanishads. Foram eles as primeiras vozes d a Filosofia e da Religião no mundo terrestre, como provindo de uma raça de profetas, de mestres e iniciados, em cujas tradições iriam beber a Verdade os homens e os povos, salientando-se também que suas escolas de pensamento guardavam os mistérios iniciáticos com as mais sagradas tradições e respeito…
O pensamento moderno é o descendente legítimo daquela grande raça de pensadores, que se organizou nas margens do Ganges, desde a aurora dos tempos terrestres, tanto que todas as línguas das raças brancas guardam as mais estreitas afinidades com o sânscrito, originário de sua formação e que constituías uma reminiscência de existência pregressa  em outros planos.
… Os cânticos dos Vedas são bem uma glorificação da Fé e da esperança, em face da Majestade Suprema do Senhor do Universo. A faculdade de tolerar e esperar aflorou no sentimento coletivo das multidões, que suportaram heroicamente todas  as dores e aguardaram o momento sublime da redenção. Os Mahatmas criaram um ambiente de tamanha grandeza espiritual para o seu povo, que, ainda hoje, nenhum estrangeiro visita a Terra sagrada da Índia sem de lá trazer as mais profundas impressões acerca de sua atmosfera psíquica. Eles deixaram também ao mundo as suas mensagens de amor, de esperança e de estoicismo resignado, salientando-se que quase todos os grandes vultos do passado humano, progenitores do pensamento contemporâneo, deles aprenderam as lições mais sublimes.

Emmanuel
A Caminho da Luz
Capítulo V / A Índia – A Organização Hindu


[1] Nirvana – Paraíso, libertação dos Sentidos Primitivos.
[2] Masala – Condimentos
[3] Bhārat Gaṇarājya – República da Índia
[4] Maharishi – sábios, místicos, também um dos sete grandes videntes mitológicos dos textos védicos.
[5] Rupia – Moeda da República da Índia
[6] rickshaw – Tipo de transporte, charrete, puxado por bicicleta.
[7] Sharee – tradicional vestuário feminino na Índia
[8] Namaskar – também Namaste ou Namastetu, saudação comum que significa: “O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você.” Saudação feita ao chegar, ao sair, bem como substitui bom dia, boa tarde etc.
[9] Pashupati – Senhor dos Animais
[10] Trishula – tridente de Shiva
[11] Mandir – Templo
[12] Maya – Deusa que representa a ilusão em todas as suas expressões, mormente da matéria e da vida temporal.

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