O REINO DA PAZ

Senhor, Amado Rei! Assento-me sob uma árvore de neen1 e assopro a minha pobre avena de bambu, mas a minha música ecoa solitária, não chegando nem à minha pobre aldeia...
Mestre de minha vida! O mundo em contendas tremendas abafa a melodia de amor por Ti e, assim, estrangula-se pela estrídula marcha das guerras insanas...


Os governos dissipam, ainda, as posses universais nas bases do despotismo e da incúria, enquanto as crianças caem mortalmente atingidas pela insanidade da ganância dos poderosos... Alteiam-se em seus decretos de autoritarismo no poder temporário, enquanto tudo Te pertence, Ó Senhor!



As sociedades não recebem o som melancólico de minha flauta humilde entoando a Tua comiseração, tão absorvidas e ensurdecidas se encontram em seus apegos e paixões...


Mestre Amorável, Rei de minha alma! As famílias se esfacelam e os bens da religião são malbaratados pelo orgulho e pelas vaidades, fenecendo em tantos descaminhos e nas pseudoverdades...

Mas, continuo assoprando a minha melodia tímida de amor, clamando por Ti Soberano Rei, atemorizado ante o domínio de Raktabija2 que, autorizado por Varuna3 , parece tomar o mundo como seu reino de ignomínias.
Clamo! Ó Senhor Shiva4 ! Ó Grande transformador, com seu potente trishula5 de três pontas; criação, revolução e transformação, proporciona à Terra as grandes mudanças, as grandes revoluções para o Progresso do Espírito... nessa fé e nessa expectativa se acalma o espírito do cantador solitário...

Assopro ainda, Ó Senhor e Rei, a minha avena de bambú entoando o Teu cântico de amor; na expectativa de Tua presença – Luz meridiana a clarear as dores tremendas que ainda envolvem o mundo; tão pleno de conhecimentos e tão baldo do verdadeiro amor e fraternidade.

Subitamente, do espaço surge um relâmpago de proporções e claridades colossais, qual fogo abrasador rompendo em direção a terra e em meio dele Tu surges ó meu Senhor, em Teu carro de luz deixando um rastro de estrelas! Meus olhos assombrados atestam que tu percorres toda a extensão de teus domínios, pois tudo Tu conheces, tudo Tu sabes e por isso mesmo, Tu também choras... 

Tomas a Tua flauta de ouro e assopras a mais sublime de todas as melodias de amor e paz, de misericórdia e esperança atingindo todas as nações, todas as sociedades, todos os credos e todas as almas! Súbito, tudo se acalma, emerge uma grande e profunda esperança, uma fé inquebrantável assoma os corações de que Teu Reino de Paz logo se instalará na terra e nada mais, torpe, resistirá ao influxo de Tua melodia divina; o mal não mais sobrelevará o bem e a vanglória do orgulho e da vaidade cairão por solo, sem mais eco...

Enfim, assoprando na Tua flauta de ouro a música da Paz e da Misericórdia assegura-nos que o mundo envolver-se-á em Tua melodia de progresso e serenidade, para Eternidade dos tempos... 
Louvado seja amado de minha vida! Louvado seja Ó Rei da Beleza e Senhor da Paz!

Rabindranath Tagore
Mensagem Psicografada por 
Helaine Coutinho Sabbadini
em Reunião Pública na AEPH - Associação Espírita Paz e Harmonia
Miracema, RJ, em 27 de Setembro de 2013


1- Neen (Azadirachta indica) é o nome de uma árvore da família Meliaceae, única no seu gênero botânico. O seu nome científico faz referência à sua origem, a Índia.
2- Demônio na Mitologia Indiana
3 -Senhor dos nós – Deidade Indiana que segundo a Mitologia possui a capacidade de prender ou liberar, de dar a vida ou tirar. 
4- Supremo Deus Hindu do Progresso e do Movimento Cósmico 
5- Tridente usado pelo Deus Shiva

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