Carta Paterna

Meu querido filho,


Há mais de 30 anos escrevi para você uma carta quando da iminência de seu casamento e de sua formatura. Na minha visão restrita, de pai preocupado, aqueles eram os dois grandes passos de sua existência, contudo, faltou-me a lucidez de sobrelevar e advertir quanto ao maior de todos os valores que um coração pode amealhar na existência terrena: os bens espirituais.


Mas pela Misericórdia Divina, que jamais nos abandona, presentemente desembaraçado dos laços da matéria e com grande júbilo espiritual, percebo que ainda há tempo de reescrever a minha singela carta de pai e o faço banhando minha própria face em lágrimas de gratidão a Deus.


O pesado escafandro da carne oblitera-nos a percepção da realidade espiritual, isto é um fato. Não apelo aqui para que seu coração se abra para uma crença; eu simplesmente afirmo em minha amorosa dedicação paternal: a vida espiritual é uma realidade pujante, e aquele que não se conscientiza dela enquanto sorvendo os dias terrenos, após o esgotamento das energias físicas, conscientizar-se-á de forma dolorosa.


Meu filho, não fomos encaminhados à experiência física para dar vazas somente aos anseios e expectativas de ordem puramente imediatas, profissionais e materiais, embora sejam elas importantes e louváveis. Nada obstante, estas realizações não podem, e não devem, sobrepor-se às edificações e compromissos de ordem moral, ética e espiritual. Os compromissos com a própria vida, com a família e com a indumentária física, empréstimo para a experiência redentora, constituem-se divinos abonos dos quais teremos que prestar contas a Deus mais tarde.


Individualidades que o amam e o amparam do Plano Espiritual preocupam-se neste momento crepuscular de sua existência, como eles, eu também. Todos desejamos falar à intimidade do seu coração e pela Misericórdia de Deus a oportunidade se fez...


Meu filho, na Terra, com as visões obliteradas, poucas vezes ajuizamos o que nos é devido, pois escapa-nos o saudável hábito da oração e da vivência quanto aos valores precípuos do espírito. Afadigamo-nos unicamente na realização dos nossos “brinquedos de criança”, afirmo-o sem qualquer laivo de pseudo-sabedoria. Pois como crianças valorizamos coisas passageiras e insignificantes, em contraposição às construções imorredouras do espírito.


Há um chamamento das Esferas Sublimes, meu filho, ao seu espírito, clamor este altissonante e austero, por favor não posponha para depois emprestar a sua atenção a ele. Não prodigalize os cuidados à vida, à dádiva da indumentária física, preciosa e necessária, que os Benfeitores Maiores nos emprestam para sorvermos as lições indispensáveis na Terra. Não prodigalize o carinho e o cuidado, através de sua convivência amiga, em bases de camaradagem, dedicação e amor, junto aos entes que Deus lhe entregou como filhos. Eles são seus grandes e principais compromissos e dádivas, por isto nasceram seus filhos. Não lhes sobrecarregue de angústias e preocupações desnecessárias. Ama-lhes e frua de seus convívios, meu filho, pois amanhã você identificará que foram eles o seu maior patrimônio na esfera de lutas terrenas.


Ninguém vive só. O sublime e misterioso significado da evolução está, de forma sub-reptícia, nesta interdependência que nos arremete aos valores da família, do lar.


Oro pela Misericórdia de Deus a favor de todas as nossas necessidades, também para que você receba minha singela cartinha, não a aceitando pela interpretação puramente analítica, racional, mas recebendo-a no coração com a carga de amor e preocupação que depositei, como pai que ainda me sinto, em cada palavra a você dirigida.


Fica em paz, pára um pouco, realinha o seu existir em novas bases, meu filho, e afirmo: nunca você se arrependerá de tê-lo feito.




Seu pai saudoso.


Mensagem Psicográfica recebida em Culto Evangélico no Lar
Por Helaine Coutinho Sabbadini
Em 31 de maio de 2010

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